BRASIL NUCLEAR, ano 8, número 23, abr-set 2002

O FUTURO É NUCLEAR

Andre Maïsseu

Um dos personagens mais conhecidos das histórias em quadrinhos de todo o mundo é o gaulês Asterix. As aventuras dele e de seus companheiros de “uma perdida aldeia da Gália”, única a não se submeter ao poderio do Império Romano, vêm divertindo gerações, ao mesmo tempo em que passam uma mensagem otimista: a vitória pode sorrir para aqueles que lutam por uma causa justa, não importa seu tamanho. Para isso, porÉm, É preciso ter coesão, acreditar no que se está fazendo e descobrir as melhores armas para enfrentar o inimigo. A lembrança desses quadrinhos vem à mente quando se conhece o Wonuc - Conselho Mundial de Trabalhadores Nucleares, entidade não governamental, sem fins lucrativos, sediada em Paris, que congrega associações e sindicatos de profissionais do setor e tem como missão defender o uso da energia nuclear contra seus inimigos, que querem fechar as usinas já existentes e impedir a construção de outras, alegando tratar-se de uma solução perigosa, cara e maléfica para o futuro da humanidade. Tendo como embrião sindicatos de trabalhadores nucleares franceses e britânicos que decidiram juntar forças em 1993 para defender os direitos dos seus membros, o Wonuc foi oficializado em 97 e hoje tem representação em 26 países (entre eles o Brasil, através da Aben). A entidade, assim como a aldeia gaulesa, também tem seu grande guerreiro: o francês Andre Maïsseu, um de seus fundadores, seu presidente e principal porta-voz. Aos 59 anos, este engenheiro especializado em técnicas nucleares com doutorado em física e Ph.D em Economia, professor da Sorbonne na cadeira Economia para o Progresso Tecnológico, acredita que lutar pela energia nuclear é lutar para que a humanidade tenha um futuro melhor e que cabe aos profissionais do setor liderar esta guerra. Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, onde veio participar da primeira reunião preparatória da “International Nuclear Atlantic Conference”, que será realizada nesta cidade em agosto de 2002 (veja matéria sobre o Inac na página 27) Maïsseu deu uma longa entrevista a Eloyza Guardia, de Brasil Nuclear. Durante a conversa, o presidente do Wonuc explicou a posição da entidade, comentou a atual situação do setor nuclear, usou sua verve para metralhar os inimigos, a quem qualificou de “ambientalistas extremistas que defendem teorias neo-malthusianas”, mandou um recado para o Brasil - “vocês não têm outra opção de energia”, e previu a vitória final da energia nuclear, “a única que tem recursos para durar mil anos”.

O que levou à criação de uma entidade como o Wonuc ?

A idéia de criar o Wonuc nasceu da constatação, no início da década passada, de que nossos empregos estavam sendo ameaçados pela crescente pressão de ambientalistas extremados, os “verdes”, em prol do fechamento das usinas nucleares e do desmantelamento do setor. A primeira motivação foi defender os empregos de uma categoria que, segundo nossos estudos, abrange, no mundo, cerca de dois milhões de pessoas diretamente envolvidas na produção nuclear. Para isso, era necessário que passássemos a nos envolver nas discussões sobre a questão nuclear, que sempre estiveram restritas às esferas de governos e empresas, com as decisões passando ao largo daqueles que constituem a linha de frente desta indústria. Descobrimos, então, que para defender nossos direitos, precisávamos, antes, defender o uso da energia nuclear e mostrar ao público em geral que essa energia era boa para a humanidade. Quem tem maior credibilidade para garantir a segurança das usinas do que aqueles que, no caso de um problema, serão os primeiros e principais afetados? Nós somos os melhores porta-vozes dessa indústria porque somos os verdadeiros especialistas no assunto.

Na sua opinião, por que existe toda essa campanha mundial contra o uso da energia nuclear?

Eu não entendo essa campanha contra a energia nuclear. Não existe a mesma coisa contra a indústria do petróleo, a industria do gás. Antigamente, dizia-se que a campanha era orquestrada pela União Soviética, para destruir a industria ocidental. A KGB estaria por trás disso. A KGB desapareceu e a campanha continuou. Pensou-se também na CIA. Há várias hipóteses. Eu cheguei a uma teoria sobre o assunto, que é a seguinte: a forma como os verdes encaram o mundo. Segundo eles, o mundo tem recursos limitados e, se continuarmos usando esses recursos, em dez anos, 20 anos, um século ou dois séculos, teremos usado todos os recursos naturais do planeta. Então, quanto mais consumirmos, mais teremos que produzir e se nós aumentarmos a produção, aumentamos o consumo. Aí temos que aumentar a produção e por aí vai, até termos esgotado todos os recursos naturais. Assim, para os verdes, a solução é reduzir o crescimento e nunca usar energia nuclear porque energia nuclear é uma maneira econômica de produzir eletricidade e se tivermos cada vez mais energia, vamos aumentar a produção, etc, etc. Dito assim, parece lógico, não é? Mas isso é uma visão convencional da economia, na qual se usam apenas duas funções da produção - capital e trabalho. Os verdes são neo-malthusianos. Eles esquecem o fator tecnologia, que é gerado por nossos cérebros. E os nossos cérebros não são recursos limitados.

O senhor poderia explicar melhor?

Vou lhe dar um exemplo: se você tem um barril de petróleo mais um barril de petróleo isso significa dois barris de petróleo que, se forem utilizados, vão desaparecer. Se nós colocarmos junto a minha criatividade, a sua criatividade, isso não é um mais um, é sinergia. Outro dado importante é a famosa Lei de Lavoisier: “Na natureza, nada se cria nada se perde, tudo se transforma”. Se temos uma mente, somos capazes de reprocessar as coisas. Por isso, precisamos de mais tecnologia, mais energia para sermos capazes de reprocessar coisas. Nós reprocessamos combustível nuclear. Transformamos matéria em energia. Esta é uma das maiores conquistas da humanidade. Os ambientalistas extremados têm uma visão pessimista da humanidade. Se pensarmos como eles, vamos achar que existem pessoas demais no mundo. Na Inglaterra, há alguns anos, houve uma grande conferência sobre demografia e foi dito por Jacques Cousteau que a humanidade não deveria passar de dois bilhões de pessoas. E como seria feita essa redução populacional? Quem faria a escolha? Isto é fascismo!

O que o Wonuc tem feito para combater a campanha contra a energia nuclear? Como se dá a atuação do Wonuc no cenário mundial? Quais suas principais atividades?

Nosso foco principal são atividades que visem mostrar a verdadeira imagem da indústria nuclear. Assim, organizamos e participamos de eventos que possam divulgar essa imagem, fazemos lobby em prol da energia nuclear para influenciar decisões políticas, organizamos seminários técnicos para discutir questões como, por exemplo, a influência das radiações na saúde das pessoas, publicamos artigos científicos sobre o uso da energia nuclear. Nossa página na Internet www.wonuc.org é acessível a qualquer pessoa e nela estão nossos objetivos, nossas atividades e uma grande biblioteca sobre assuntos pertinentes ao setor. Atualmente, estamos preparando um código de ética relacionado à energia nuclear. A primeira versão dele está na nossa página, à disposição de quem quiser fazer comentários, visando aperfeiçoá-lo.

O que o senhor poderia apontar como sendo uma vitória do Wonuc em relação a seus adversários?

Apesar de sermos uma entidade muito jovem, com apenas quatro anos, temos conseguido algumas vitórias. Uma delas foi a questão da relação entre os níveis de radioatividade e os efeitos em nossa saúde. Isto é muito importante para nós, trabalhadores nucleares, porque se a radioatividade fosse perigosa, seria danosa para as condições de trabalho. E isto é uma questão muito difícil de responder. De um lado, nós temos os “verdes” dizendo: é perigoso e você pode desenvolver um câncer. Do outro, estão os diretores das usinas dizendo: não se preocupem, a radioatividade não vai lhes fazer mal algum. Nós não podíamos confiar totalmente em nenhum dos lados. Então, o Wonuc começou a questionar os cientistas sobre este ponto muito importante: o efeito das radiações em baixas doses na saúde do ser humano. Realizamos uma primeira conferência em Versailles, em1999, e uma segunda em Dublin, na Irlanda - um país totalmente contra a energia nuclear. Eles tinham o melhor pessoal para discutir os aspectos carcinogênicos, a quebra do DNA, desenvolvimento de leucemia etc. e nós descobrimos, passo a passo, que ser submetido a uma dose de radiação muito baixa pode ser benéfico para a saúde. Quebramos o dogma de que qualquer radiação era ruim para a saúde.

Como presidente do Wonuc, o senhor tem tido oportunidade, nesses quatro anos, de acompanhar de perto o desenrolar dos acontecimentos no setor nuclear mundial. Como o senhor vê a situação atual?

A situação atual é caótica. O problema está na Europa. Dos 15 países pertencentes à União Européia, oito a nove - entre eles a Alemanha, Holanda, Bélgica, Grécia, Portugal, Áustria - estão contra a energia nuclear e pressionando países da Europa Oriental a não aderirem à opção nuclear ou a não construírem mais usinas, sob pena de não serem aceitos na comunidade européia. Tudo isso por razões políticas, ou seja, como os governos de vários desses países dependem dos pequenos partidos “verdes” para conseguirem maioria , acabam aceitando a exigência do desmantelamento das usinas nucleares em troca de seu apoio político. Os verdes representam apenas 1 a 2% do eleitorado desses países, mas eles são os fiéis da balança. é uma situação inacreditável, porque várias pesquisas de opinião demonstram que na Suécia, por exemplo, 80% da população é favorável ao uso da energia nuclear. Mesmo na Alemanha, o apoio às usinas é de 58%.

Se existe esta situação, porque está se falando do renascimento da energia nuclear?

Ah! Porque o resto do mundo não pensa assim. A Rússia mantém seu investimento na energia nuclear. Na Ásia, países como Japão e a Coréia têm nas usinas nucleares sua principal fonte de energia. A China, embora tenha carvão, também está construindo mais usinas, assim como a Índia. Além disso, a recente decisão do presidente americano George Bush de retomar a construção de usinas nucleares tem repercutido na Europa, já que esses países tendem a seguir a orientação americana. Então, o primeiro ministro britânico Tony Blair já está dizendo que vai rever a decisão de não construir novas usinas nucleares. Os tchecos não aceitaram a pressão da Alemanha e da Áustria e decidiram manter sua usina nuclear. E temos ainda os países do Oriente Médio, muitos deles grandes produtores de petróleo, para os quais a opção nuclear visa não só ajudar a manter suas reservas de petróleo, mas, também, resolver uma grave situação de falta d’água, já que uma maneira econômica de dessalinizar água do mar é através de usinas nucleares , que usam as mais altas temperaturas de vapor para gerar energia elétrica e aproveitam o calor remanescente para produzir água potável. Marrocos, Tunísia, Irã, Bahrein e Arábia Saudita são países que estão analisando a construção de usinas. Enfim, a situação está mudando.

O senhor não falou na América Latina.

A energia tem sido tratada como uma commodity, uma mercadoria, mas não é somente uma mercadoria. é um meio de produzir coisas. Para produzir, você necessita dinheiro, tecnologia e energia. Sem essas três coisas não se pode fazer nada. O índice de consumo per capita de energia é usado para medir o desenvolvimento social. Os países mais desenvolvidos, como o Canadá, a Suécia etc, têm um nível de 17 a 20 mil KW.hora por ano, per capita. Os países intermediários, como França e Estados Unidos, registram um índice de 12 mil KW.hora/ano. é claro que se precisa dar o desconto das condições climáticas. Quanto mais frio, mais necessidade de energia, mas mesmo assim, o nível da América Latina é muito baixo. No Brasil, este índice está abaixo de 2000 KW.hora/ano. Se vocês não conseguirem solucionar seus problemas de energia, vão continuar sendo um país pobre. é necessário, também, conhecimento tecnológico, mas países como Brasil, Argentina e Chile têm pessoas educadas, excelentes universidades, assim, o conhecimento não é problema . Há a questão do dinheiro mas, também, pode ser resolvida. O fundamental é atender a demanda energética. Sem isso, será impossível mudar a condição de vida do povo, do nível atual para um padrão de vida como o da Europa ou dos Estados Unidos.

Como o senhor sabe, o Brasil está atravessando uma séria crise energética. Mesmo assim, vários segmentos governamentais e econômicos continuam contrários à ampliação do uso da energia nuclear aqui, mesmo já se tendo todos os equipamentos de Angra 3 comprados. Eles alegam que nós temos recursos hídricos e afirmam que com o custo de construir Angra 3 podem ser feitas dezenas de usinas a gás. O que o senhor diria a essas pessoas?

Eu estou perplexo porque, para mim, é impossível entender por que, no Brasil, vocês ainda estão discutindo essas questões. Vocês não tem escolha. Eu gostaria de conhecer alguns políticos brasileiros e perguntar a eles o que eles sabem sobre o assunto . Vejamos as alegações: mesmo que haja muitos recursos hídricos, o Brasil é um país muito grande, com vários centros de produção e esses recursos não estão localizados junto aos principais centros. Não é possível interligar todas as redes elétricas. O custo seria inviável. Vocês têm algum petróleo - um milhão de barris diários - mas isso não é suficiente. Então, vocês precisam importar petróleo, gás e carvão, o que significa ficar à mercê de variações cambiais e das oscilações do preço do petróleo. Por outro lado, vocês têm vastas reservas de urânio, além de domínio tecnológico de todas as fases do ciclo de produção do combustível nuclear. Apesar disso, a participação da energia nuclear no suprimento do país é de apenas 3%. é “non sense”! Vocês precisam da energia nuclear. Se o Brasil abrir mão da nucleoeletricidade, em menos de um século estará voltando aos tempos pré-colombianos! Eu gostaria de mostrar aos adversários da energia nuclear no Brasil, o exemplo da França. Quando o programa de energia nuclear francês foi implementado pelo Presidente Charles de Gaulle, um repórter perguntou a ele o porquê e ele respondeu: “é simples. A França não tem petróleo, não tem carvão, não tem gás, não tem escolha”. Nós não tínhamos escolha. E hoje, somos exportadores de energia para Grã Bretanha, Alemanha, Espanha, Portugal, Bélgica, Itália. Em termos financeiros, isso rende cerca de US$ 4 a 5 bilhões por ano, sem contar que poupamos aproximadamente US$ 20 a 30 bilhões por ano, pois não precisamos importar petróleo.

E quanto ao custo do investimento para a construção de uma usina nuclear, em comparação com o da construção de usinas termelétricas, que tem sido um dos argumentos mais fortes contra Angra 3?

Realmente, o investimento na construção de uma usina nuclear é mais alto do que o de uma usina a gás. Mas, no final, o custo do KW.hora da energia nuclear é mais baixo do que o da energia produzida pela usina a gás. Existem algumas razões para isso, já comprovadas em estudos de viabilidade econômica. Uma delas é a mão de obra envolvida. A produção de energia nuclear utiliza dois terços da mão de obra necessária para uma usina a gás. O outro custo fixo, que é o custo do combustível, também é mais vantajoso para a usina nuclear. Então, quando se faz o cálculo econômico, para definir a tarifa de uma usina pronta a gás e de uma nuclear, considera-se esses custos e os do investimento na construção são diluídos pelos anos de vida útil do empreendimento, que no caso das usinas a gás, chega, no máximo, a 15 anos, enquanto que, no caso da nuclear, a vida útil mínima é de 40 anos. Isto para as usinas mais antigas, porque as mais novas, como Angra 2, por exemplo, já dispõem de uma tecnologia que permite estender essa vida para 60 anos, bastando fazer alguns ajustes.

A energia nuclear será a energia do futuro?

Sem dúvida. Daqui a 15, 20 anos, haverá uma grande crise de energia relacionada com o petróleo. Não porque vai acabar. Ainda existirá petróleo por mais uns 50 a 70 anos mas terá que ser buscado em locais mais profundos e o custo será bem diferente. O preço da produção do petróleo extraído no Mar do Norte, por exemplo, que, hoje, custa US$ 6 a US$ 8 o barril, vai estar na faixa dos US$20 o barril, o que significa que o preço de venda estará em torno dos US$60. Será mais um choque do petróleo. Além disso, os outros recursos energéticos, como água e carvão também são finitos. Tudo isso trará uma crise de energia sem precedentes e a única solução será começar a investir agora, cada vez mais em energia nuclear, pois é a única energia conhecida, até o momento, que tem recursos que podem durar mil anos! Este é o tempo estimado, usando a tecnologia atual. Ele irá aumentar cerca de cem vezes quando passarmos a usar os reatores de última geração (fast breeders ou regeneradores)! Isso porque, com esses reatores não há perda de combustível. Ao mesmo tempo em que se queimará combustível, se estará produzindo combustível. A tecnologia nuclear é assim, é uma tecnologia com spin-off, uma tecnologia que alavanca outras tecnologias. Você pode ir quebrando paradigmas, o que se constitui no processo real do desenvolvimento da economia.

Os trabalhadores do setor nuclear brasileiro participam do Wonuc, através da Aben. Qual a mensagem que o senhor deixaria para eles?

Tenham orgulho do que são. Tenham orgulho de trabalhar com energia nuclear. Acreditem no que estão fazendo. O futuro de seu país passa pelas suas mãos.